LONGA-METRAGEM EM 35 MM
JANELA 1:85
SOM: DOLBY SR DIGITAL
DURAÇÀO: 102 MIN


SINOPSE

Nos anos 70, quando o país vivia sob a ditadura militar, muitos presos políticos foram levados para a Penitenciária da Ilha Grande, na costa do Rio de Janeiro. Da mesma forma como os políticos, assaltantes de bancos também estavam submetidos à Lei de Segurança Nacional. Ambos cumpriam pena na mesma galeria. O encontro entre esses dois mundos é parte importante da história da violência que o País enfrenta hoje. "Quase Dois Irmãos" mostra como essa relação se desenvolveu e o conflito estabelecido entre eles. Entre o conflito e o aprendizado, nasceu o Comando Vermelho, que mais tarde passou a dominar o tráfico de drogas.

Através de dois personagens, Miguel, um jovem intelectual de classe média preso político na Ilha Grande, e hoje deputado federal, e Jorge, filho de um sambista que de pequenos assaltos se transformou num dos líderes do Comando Vermelho, o filme tem como pano de fundo a história política do Brasil nos últimos 50 anos, contada também através da música popular, o ponto de ligação entre esses dois mundos. Hoje, começa um novo ciclo: Miguel tem uma filha adolescente, que fascinada pelas favelas e pela transgressão, se envolve com um jovem traficante.


JUSTIFICATIVA

Desenvolver o projeto "Quase Dois Irmãos" é um pouco entrar no túnel do tempo. Reviver uma infância em um Rio de Janeiro privilegiado no seu esplendor preto e branco; reviver os anos de chumbo onde muitos mitos, não só o do bom bandido, marginal-herói, se defrontou com a dura realidade da cadeia; reviver o nosso dia-a-dia de uma cidade-exemplo da violência mundial.

Poder desenvolver este projeto, pensado de maneira fragmentária no decorrer de algumas décadas, é ir também contra a corrente de quem quer tratar a violência como fetiche. Se a violência é feia, a quem interessa o glamour dos personagens manchados em sangue?

O filme pretende mostrar as transformações ocorridas nos últimos 50 anos no Rio de Janeiro a partir de dois pontos de vista: da classe média e da marginalidade. Para isto, suas relações e conflitos vão ser dramatizados a partir de dois núcleos familiares.

Ao ritmo da industrialização dos anos 50, a classe média ascendente romantiza o malandro, jogador de capoeira e sambista. Neste momento, as relações são amistosas, marcadas por um certo carinho paternalista que se expressa em inúmeras produções culturais. O intelectual "descobre" os talentos do morro. E o morro não ameaça, nem reclama seus direitos.

A ditadura vai encontrar estes dois arquétipos na cadeia. As relações amistosas não conseguem sobreviver ao enfrentamento diário. Mas, além da separação, a convivência trouxe um aprendizado de ambos os lados. A classe média neste momento entra em contato com as transgressões - drogas e homossexualidade - que vê na cadeia. O jovem marginal, por sua vez, se aproveita da organização dos militantes para criar sua própria organização.

Nos anos 90, mais uma vez, a realidade os aproxima. Não é mais uma relação paternalista nem um enfrentamento de igual para igual.. Como nos 50, a classe média volta a ter poder dentro da sociedade civil. Só que do outro lado encontra um novo poder estabelecido com a entrada das drogas na sociedade. Um poder que também não está desvinculado do seu mundo, pois o contraponto desta realidade é o uso indiscriminado das drogas na própria classe média.

A importância para mim de "Quase Dois Irmãos" é poder confrontar esses dois mundos, essas duas razões, esses dois olhares.

LÚCIA MURAT


MAKING OFF


ENTREVISTA COM LÚCIA MURAT

Lúcia Murat iniciou sua carreira como jornalista na imprensa e na televisão, quando dirigiu inúmeros programas e começou a fazer documentários. Nos anos 90 se firmou como diretora de longa-metragem, tendo dirigido os seguintes filmes: Que Bom te ver viva (melhor filme no Festival de Brasília – 1989), Doces Poderes (1996), Brava Gente Brasileira (2000) e "Quase Dois irmãos" (2004 – Prêmio de melhor diretor, melhor ator e prêmio Fipresci de melhor filme latino-americano no Festival do Rio). Seus filmes participaram dos mais importantes festivais internacionais, como Berlim, Sundance e Toronto.

Porque fazer o "Quase Dois Irmãos" hoje? Como surgiu a idéia de se filmar essa história?

A experiência principal do filme no presídio na Ilha Grande está ligada a uma experiência pessoal. Eu, que também fui presa política, vivi isto na época da ditadura e um dos aspectos que sempre me impressionou muito foi a questão da impossibilidade da relação, mesmo na cadeia. Isso ficou na minha cabeça como algo interessante de ser trabalhado, acho uma experiência dramática incrível.

Mas, a idéia do filme mesmo me veio à cabeça quando algumas adolescentes conhecidas passaram a subir o morro e ter relação com traficantes. Então, na verdade, o filme partiu de hoje. Era como se fosse uma reprodução, nos novos tempos, de uma mesma experiência que já tinha vivido antes. A idéia portanto, já surgiu como sendo uma história que teria várias épocas, como um círculo vicioso. No fundo o filme é profundamente auto-biográfico da minha geração.

Tem ainda um aspecto que me interessa muito que é, ao mesmo tempo a contradição social e o elo cultural com os quais o filme trabalha o tempo todo, principalmente através da música. Acho que o "Quase Dois Irmãos" aponta também para a necessidade de rompermos, de alguma maneira, com esse círculo vicioso. O elo cultural entre esses dois mundos traz em si uma possibilidade de mudança, uma possibilidade de encontro e de admiração.

O roteiro é como um quebra-cabeça, porque você decidiu contar a história de forma não-cronológica?

Quando escrevi a primeira versão do roteiro com o Paulo Lins, que veio com a experiência que ele tinha de falar do outro lado, do lado das comunidades, escrevemos cronologicamente. Mas isso foi só uma questão de exercício, porque esse filme foi sempre pensado como um quebra-cabeça, justamente para acentuar o círculo vicioso. Não era apenas contar a história da Ilha Grande ou da menina que se relacionava com traficante, mas sim dessa repetição o que mais me instigou.

Em todas as entrevistas com os atores ficou muito visível sua capacidade de dividir com eles os processos criativos, absorvendo as interferências que cada um trazia. De que maneira você incorpora essa criação quase que coletiva na sua função de diretora?

Sempre trabalhei dessa maneira. Eu acredito muito em criação coletiva. Acho que cinema é isso. Cinema não é literatura. Nós tínhamos um roteiro muito trabalhado, com excelentes diálogos, mas quando saímos para filmar, ele foi transformado pelos atores. Acho que as melhores cenas do filme foram fruto dessa transformação. Para mim, roteiro é algo que tem que ser transformado.

Para fazer este filme, que deveria contar com um elenco muito grande oriundo das favelas do Rio, eu precisava trabalhar com pessoas de pouca experiência como atores profissionais. Além do “Nós do Morro” (grupo de teatro da favela do Vidigal) trabalhei com o “Nós do Cinema” (grupo formado a partir do filme “Cidade de Deus”) para compor os dias atuais. Mas eu precisava também de muita gente para compor a década de 70. Na definição do elenco, fizemos primeiro uma seleção extremamente trabalhosa diretamente nas comunidades (como Rocinha, Maré, etc), além dos grupos já citados. Depois, fizemos um work-shop com 80 pessoas selecionadas e, durante o processo, os atores foram escolhendo e sendo escolhidos para os papéis que acabaram interpretando. Essa experiência foi fundamental para dar vida ao roteiro. Quer dizer, a idéia central sempre existiu, mas a maneira como as coisas foram sendo feitas têm total interferência deles.

Paralelamente a isso, os atores principais (Caco Ciocler e Flavio Bauraque) também criaram bastante em cima do roteiro. Não somente porque foram parte desse workshop como também tinham que descobrir e aprofundar uma ligação que existia entre os dois personagens. O filme precisava disso, precisava que essas duas pessoas pudessem realmente ter tido um encontro. E esse encontro não podia ser verbal, tinha de ser através do sentimento. Acho que isso foi alcançado nesse trabalho.

O que de mais importante fica para você depois do filme pronto?

Acho que o "Quase Dois Irmãos" fala do encontro de dois mundos. E, nesse sentido, o ponto de ligação é a música. Mas, ao mesmo tempo, é um filme violento, um filme dramático. O que me espantou no final é como essa mistura ficou bonita.

A contribuição do Nana Vasconcelos em relação à música tem uma importância grandiosa. Foi uma interpretação muito bonita do filme, muito afetiva. Ele, assim como o Paulo Lins, trouxeram o outro lado para o filme e fizeram a união destes dois mundos. Acho que o filme vai ao encontro destas duas realidades, numa interpretação extremamente lírica, que eu gosto muito.



ENTREVISTA COM PAULO LINS

Fale um pouco da criação do roteiro, que aborda uma época recente, mas tão pouco conhecida pelos brasileiros.

Quando a Lúcia Murat me chamou para escrever o roteiro, ela já sabia o filme que queria fazer, já tinha a idéia bem definida. O "Quase Dois Irmãos" fala de uma época que tanto eu como a Lúcia vivenciamos de perto. Nesse sentido, nossas duas realidades se encontram no roteiro. O interessante é que estamos falando de um período sobre o qual as pessoas pouco sabem. O filme mostra o início de toda a criminalidade que presenciamos hoje.

O fenômeno da criminalidade é tratado como um dos problemas mais sérios que o Brasil vem enfrentando nos últimos vinte anos. O número de mortes causadas pelo tráfico de drogas, seqüestros e assaltos é assustador. E é por isso que "Quase Dois Irmãos" é um projeto de extrema importância, não só pela sua temática, mas também pelo número de pessoas que discutirão o assunto, já que o alcance do cinema é muito maior do que o da literatura.

Como se deu o processo de criação dos personagens da trama?

A Lúcia tinha o argumento definido. A partir daí, fizemos a pesquisa juntos, entrevistamos pessoas que viveram aquela época, debatemos e conversamos muito. A Lúcia ficou com uma parte e eu, com outra. Esse foi o roteiro mais fácil que já fiz na vida. Nós dois sempre gostávamos do que o outro tinha escrito, e então o processo fluiu com extrema facilidade. Escrever roteiro é uma loucura, o processo nunca termina até o dia da filmagem, mas a espinha dorsal deste trabalho foi fácil de fazer.

O que mais chama atenção nesse trabalho do "Quase Dois Irmãos"?

Acho que o aprendizado. Eu li muito sobre o período da luta armada no Brasil. Há pessoas que falam que se faz filme aprendendo, nesse eu aprendi bastante, foi um processo extremamente enriquecedor.

Além disso, a perspectiva de trabalhar em "Quase Dois Irmãos" me interessou pelo dado de realidade que o argumento apresentava. A experiência de romancear a realidade numa das favelas mais violenta do Rio de Janeiro, onde vivi durante vinte e cinco anos e pesquisei durante oito anos para análises antropológicas , foi bastante satisfatória em "Cidade de Deus", romance publicado pela Companhia das Letras em 1997, pelo debate que o livro causou nos diversos segmentos da sociedade.



ENTREVISTA COM JACOB SOLITRENICK

Como você pensou a fotografia do "Quase Dois Irmãos"?

Esse filme é feito basicamente com câmera na mão. Eu e a Lúcia Murat temos muita parceria, nesse caso foi um trabalho em dupla. O diretor diz como quer a câmera, o movimento, e então o fotógrafo embarca e acrescenta a sua visão.

Acho que a fotografia do "Quase Dois Irmãos" é quase documental. Obviamente há uma idéia que está no roteiro, mas quando a cena acontecia de fato, com todo o vigor e com todas as limitações, aí a história acontecia de verdade, tudo aquilo que estava escrito tornava-se real. Acho que um set de filmagem tem vida própria: são os atores posicionados de determinada maneira, a luz, todo o equipamento pronto, a equipe concentrada em um só ponto. É isso que dá vida ao filme, enriquece o dia-a-dia de uma filmagem.

Acho que no caso da minha parceria com a Lúcia, ela me chamou mais pela câmera do que pela luz. Minha câmera influenciou muito o filme “Um Céu de Estrelas”, que era uma linguagem de câmera na mão. O que foi muito utilizado nesse filme.

Poder deixar os atores no escuro, por exemplo, é ter a possibilidade de brincar com essa linguagem dramática. A cena em que o Miguelzinho está cantando na surda, foi feita toda no escuro e emocionou extremamente toda a equipe. A falta absoluta de imagem pode ser emocionante e dramática, e no caso foi bastante.

Para efeito de linguagem, o que a câmera na mão traz para o filme?

Um filme com câmera na mão é muito diferente de um filme onde nada é distorcido. A câmera na mão é muito mais orgânica, mais viva. Ela pode ou não ser nervosa, não é essa a questão. Já vi muitas câmeras na mão feitas de forma extremamente suaves. Acho que indiscutivelmente, é uma operação mais sensível. Um passo pra cá ou um passo pra lá muda o enquadramento totalmente. Acho que a câmera na mão me dá mais agilidade, liberdade.

Como conduzir o roteiro através da fotografia do filme?

Estamos falando de conceito. A fotografia está diretamente ligada à composição. É impossível fazer um bom trabalho fotográfico quando a composição é ruim. Eu tenho um conceito de luz quando leio o roteiro, quando discuto com o diretor, o diretor de arte. Cria-se um conceito, que tem de ser muito forte para se manter durante o filme todo, com todas as interferências que acontecem durante as filmagens. Então, quanto mais definido o conceito, melhor. Mesmo que o conceito seja não ter conceito.

Neste filme, quis fazer um trabalho que realçasse a fotografia de contraste. Há pretos muito profundos e ao mesmo tampo nada exagerado e nenhum glamour. O glamour está justamente nos anos 50, quando buscamos uma fotografia mais composta. Ali, trabalhamos com uma composição mais clássica. Por outro lado, principalmente na cadeia, eu queria muito esse peso. Foi o que busquei ao máximo.

Esse filme tem um trabalho de pós-produção grande, que é a possibilidade do trabalho em telecine. O que quero buscar é o limite da escuridão para que seja possível se ter o peso dramático que acho que o filme exige como linguagem fotográfica. Encontrar o tom é uma busca constante. Isso para mim é que é fazer um filme.

Qual foi sua motivação para o trabalho em "Quase Dois Irmãos"?

No trabalho com cinema, pode-se sempre ir além, você está constantemente evoluindo. Acho que no momento que você consegue entregar a emoção que o diretor queria, aí você completou o objetivo. Quando se domina isso, aí você vira um artista. O prazer é isso, você buscar ser um artista.

Para trabalhar nisso, é preciso ser organizado, mas ao mesmo tempo, altamente adaptável, com rapidez de raciocínio. Você tem de estar sempre criando condições e, ao mesmo tempo, mantendo a técnica, o trabalho em equipe. Isso tudo é uma motivação pra mim, eu gosto disso. Eu adoro viver com esses desafios e usar o lado cerebral para solucionar isso. Ao mesmo tempo, conseguir a imagem desejada e ajudar o ator a alcançar a emoção em todo o processo é incrível.